Erros meus, Má Fortuna, Amor Ardente

 

Coroado

Comemoraram-se recentemente 96 anos de existência do nosso Clube de Futebol “Os Belenenses”. Em breve, sem subterfúgios, respeitando integra e honestamente registos e memórias, sem necessidade de inventar ou criar artifícios fundacionais para imposição de estatuto ou consignação de prestígio, será, como se deseja, devidamente festejado um século de existência.

A história e o percurso até ao momento preenchidos, apesar de altos e baixos próprios de uma vivência construída na entrega, esforço e dedicação, estribados num sentir imaculado construído no amor, qual paixão imorredoira, feito de causas, apoiado no respeito pelos mais elementares princípios de convivência social e desportiva, sem recurso a procedimentos e comportamentos censuráveis, algo que, convictamente, pode e deve encher de orgulho população associada e massa adepta e eleva o emblema da Cruz de Cristo, único ex-libris que verdadeiramente honra feitos e venturas dos nossos antepassados cujo destemor deu lições de querer e conquistas, símbolo que acolheu navegadores e descobridores que deram novos mundos ao mundo, confortava e alentava todos aqueles que arrostando contra a força e imensidão do oceano, nos mares do Groenlândia, em frágeis embarcações, se dedicavam à Faina Maior e, no regresso, inicialmente nas Salésias, mais tarde no Estádio do Restelo, davam largas à sua satisfação comemorando e vitoriando o seu Clube, idolatravam Artur José Pereira, Augusto Silva, Pepe, Mariano Amaro, as famosas Torres de Belém (Capela, Feliciano, Vasco, Francisco Gomes, também Serafim das Neves), Matateu e Vicente entre tantos outros.

Era a época em que, ao domingo, vindos de Cacilhas ou Porto Brandão, dia de jogo de “Os Belenenses”, os cacilheiros aportavam a Belém pejados de gente que, juntamente com muitos outros provindos da Ajuda, Boa-Hora, Junqueira ou Algés tinham um só fito: ver a equipa do seu coração fazer jus ao nome Clube de FUTEBOL “Os Belenenses”.

Os tempos atuais são outros. A pesca do fiel amigo perdeu impacto. Os artífices que da Ajuda, Junqueira ou Boa-Hora desciam até à Rocha Conde D’ Óbidos para laborarem nos estaleiros do Espanhol, mais tarde Lisnave, na fábrica do sabão, Regina, Triunfo ou fábrica dos parafusos, foram desaparecendo.

Os esforços e dedicação de dirigentes da estirpe de Reis Gonçalves (fundador), Francisco Mega, Mário Rosa Freire, o enormíssimo Belenenses Acácio Rosa ou Sequeira Nunes a quem, brevemente, se espera a Assembleia Geral outorgue a “Cruz de Cristo de Ouro, Dedicação e Valor”, guindaram o prestígio do Clube a níveis elevadíssimos, porém, o período áureo, muito por força das alterações na sociedade acontecidas na sequência das crises económicas surgidas nas décadas de 80 e 90 do século passado e, também, porque o futebol deixou de ser desporto aglutinador e congregador de interesses e motivações sociais, tendo passado de função lúdica a atividade económica, supostamente geradora de riqueza, foi-se esboroando e o interesse e motivação do ego Belenenses diminuindo.

Os tempos atuais são substancialmente diferentes. A paixão perdeu-se. O bem provir deu lugar ao interesse no lucro imediato. “Aquilo com que se compra os melões” sobrepôs-se à vontade, à dedicação, ao empenho, ao simples contributo de algo fazer em prol do coletivo.

A história faz-nos afirmar que ser Belenenses é um estado de alma, é, afirmo-o sem tibieza, um verdadeiro AXIOMA pois não se funda na efémera glória de ver o adversário derrotado. Há, por tal motivo, necessidade premente de revitalizar, refundar, chamar, motivar e incentivar a Família Belenenses ao convívio e á vivência da realidade Belenenses porque não podemos deixar que se torne uma “estória”.

O espaço físico, o património do Clube, o Estádio do Restelo e a génese da atividade desportiva – SALÉSIAS – devem ser, por excelência, a “sala de estar” de todos aqueles que se reveem na camisola com a Cruz de Cristo.

O Clube de Futebol “Os Belenenses”, o NOSSO CLUBE, brevemente centenário, pode estar letárgico, compete-nos, a TODOS NÓS, não deixar que fique catatónico.

Mais que apontar onde e quem foi o responsável por chegarmos à situação atual, sem joia de coroa (futebol sénior) e restantes anéis delapidados,  Todos, Dirigentes, demais associados e simpatizantes, devemos perceber necessidades, elencar objetivos, estipular premências.

São múltiplas as responsabilidades inerentes à gestão do Clube, enormes os problemas diários que surgem mas, maiores devem ser as vontades, o empenho individual e coletivo em superá-las.

O Estádio do Restelo dispõe de área que permite potenciar seu aproveitamento, dinamizar sua frequência, rentabilizar seu espaço.

O futebol, modalidade âncora do Clube, que tantas tardes de emoção e alegria proporcionou, deve retornar ao seio de “Os Belenenses” nem que para o efeito haja conveniência em começar no escalão mais baixo aproveitando e desenvolvendo aptidões das camadas jovens.

Reorganizar, reestruturar e privilegiar as modalidades com tradição, concedendo-lhes condições que permitam dignificar o Clube sem prejudicar o presente onerando onde não deve ser onerado para não hipotecar o futuro, é algo que não pode ser olvidado.

Porque hodiernamente a mensagem é importante, a divulgação de propósitos primordial, impor a marca essencial, criar um gabinete de Imprensa ou Comunicação, eventualmente estabelecer parcerias com escolas de Marketing para divulgação e implantação da imagem e do nome “Os Belenenses” é ação que urge.

E é porque tudo surge com raízes num AMOR PROFUNDO À CAUSA “BELENENSES” que me permito evocar Luís Vaz de Camões e o seu emérito soneto:

 

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

Em minha perdição se conjuraram;

Os erros e a Fortuna sobejaram,

Que para mim bastava Amor somente.

 

Tudo passei; mas tenho tão presente

A grande dor das cousas que passaram,

Que já as frequências suas me ensinaram

A desejos deixar de ser contente

 

Errei todo o discurso de meus anos;

Dei causa a que a Fortuna castigasse;

As minhas mal fundadas esperanças.

 

De Amor não vi senão breves enganos.

Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse

Este meu duro Génio de vinganças!

 

Com apreço e saudações Belenenses

Jorge Coroado

Sócio 2562 (Membro do Conselho Geral do CF “Os Belenenses”

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