FUTEBOL A MEIAS

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FUTEBOL A MEIAS

Refletindo sobre a gestão autónoma das SADs e sobre tudo o que pode ser estratégico à sua volta, rapidamente se percebe que o futebol do Belenenses é um problema difícil de resolver, mesmo com bons resultados desportivos e sem gastar mais do que se tem, leia-se, sem aumentar passivo e conseguindo até tornar a situação financeira mais agradável à vista, seja na formação ou no futebol profissional.

E é difícil para o Clube como é para a SAD. Porquê? Porque gerir futebol atualmente é muito mais do que gerir uma equipa de futebol profissional, bem organizada e com os salários em dia.

Se é verdade que o Clube não tem na mão o seu maior ativo desportivo, aquele que lhe dá o nome, hipotecando qualquer estratégia de sucesso com visibilidade a sério, também é verdade que a SAD não tem duas vertentes do negócio vitais para a sua sustentabilidade a médio longo prazo: a formação e as instalações.

Hoje em dia, a formação é a base de todos os negócios de transação de ativos (atletas) assente numa gestão de expectativas que faz disparar os valores a pagar e representa a principal fonte de receitas no futebol mundial. O problema é que esta gestão de expetativas acontece essencialmente nos escalões mais elevados (Juvenis e Juniores) da formação e só traz verdadeiros frutos (leia-se euros) na transição dos atletas para o futebol profissional que, no caso do Belenenses, não é nada pacífica por dizer respeito a duas entidades distintas – O Clube e a SAD.

Se, por exemplo, o Pedro Marques, o Heriberto Tavares ou o Tiago Martins têm hoje um valor muito interessante, estou certo que se treinassem regularmente com os seniores, se fizessem uns jogos na Taça da Liga ou se integrassem uma eventual equipa B, valeriam no mínimo cinco vezes mais.

Para isso seria necessário que as promessas da formação do futebol azul já tivessem contrato profissional e fossem alvo de um acompanhamento conjunto apropriado a um processo evolutivo maturacional que permitisse uma transição tranquila por forma a não “matar” o atleta como acontece tantas e tantas vezes.

Impossível neste contexto azul para mal das duas entidades.

Impossível porque a SAD não quer pagar para testar e porque se o Clube estiver atento não deixa fugir atletas para a SAD sem ser ressarcido, no mínimo, pelo seu valor de mercado. E assim fica no “limbo” o período dourado de rentabilidade do atleta, entre os 16/17 e os 20/21, idade em que já existe uma ideia muito real do alcance desportivo do jogador e em que acaba a expetativa.

Fica mal a SAD porque não tem receitas de vendas a sério nem uma base consistente de recrutamento que possibilitaria com poucos custos fazer uma equipa B. Fica menos mal o Clube que pode ganhar algum dinheiro (muito menos é certo) mas vendendo para outros Clubes, isto é, formando para outros sem consolidar e sem criar um verdadeira identidade formativa que só acontece tendo os seniores como etapa final.

O outro fator determinante do futebol profissional são as instalações. Uma SAD moderna e competitiva  tem que ter um Estádio e tem que ter um centro de treinos.

Acontece que o  Estádio do Restelo é do Clube estando protocolada a sua utilização pela SAD. É lá que está montado o “quartel general “ do futebol profissional. Mas, tal como a SAD rescindiu o parassocial, também o Clube pode rescindir o protocolo por alguma razão deixando esta com um grande problema para “transportar” o futebol profissional para outro lado.

Acresce que um campo para treinar e jogar é muito pouco. E neste caso, assim o quis a SAD aquando do protocolo sendo pública a sua vontade de fazer um centro de treinos e juntar-se ao pelotão da frente do futebol nacional que, nesta matéria, acrescenta Braga, Guimarães, Académica, Nacional ou Marítimo aos três Clubes do Estado.

Faz sentido fazer um investimento tão grande sem o poder rentabilizar com a formação ou, no mínimo, com uma equipa B? Não me parece. A formação é a fórmula mágica para rentabilizar qualquer complexo de estágio por esse mundo fora seja de Clubes seja de Federações e ter uma infraestrutura destas para 25/30 jogadores parece-me um mau negócio, um negócio que não traz retorno.

E ainda há a “million dollar question”: O que deve fazer o Clube se um concorrente direto da sua SAD (o Braga, o Guimarães, o Sporting, o Benfica ou outro) lhe oferecer, por exemplo, 250.000€ pelo Pedro Marques? Vende-o ou entrega-o de mão beijada à SAD para continuar a brilhar de azul e com a cruz ao peito, percorrendo o caminho de outras glórias belenenses, ainda que numa entidade quase antagónica ao Clube? Convoca-se uma AG para decidir?

Como está bom de ver, a rentabilização da formação, que podia ser a maior fonte de receitas do Belenenses, acaba por ser um problema porque as entidades Clube e SAD não a pensam em conjunto e têm até interesses muito distintos, por vezes até divergentes. E nem é um problema desta ou daquela direção, desta ou daquela pessoa, é um problema de génese do negócio que não foi devidamente previsto quando os sócios votaram a venda da SAD.

Estamos portanto num contexto muito complicado que, na minha opinião, está a empurrar o Clube para baixo, a criar grandes clivagens internas e a deixar-nos cada vez mais isolados e sem conseguir atrair simpatizantes, adeptos e logo…mais sócios.

Em suma, esta gestão do futebol a meias está a matar-nos lentamente por muitos bons resultados que possamos ter na formação e nos seniores e o Clube tem que ter uma estratégia para a resolver. A tal estratégia que falta e que tem que incluir os três eixos fundamentais: SAD, Formação e Complexo do Restelo!

Nuno de Almeida Costa

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