O que pretendemos para o nosso Belenenses?

 

image

Foi com muita honra que aceitei o desafio do blogue Belenenses2019, de partilhar a minha visão do estado actual do Clube de Futebol “Os Belenenses” e como eu vejo o futuro desta instituição que dentro de quatro anos, terá a aprazível e responsável idade de um século de existência.
Recordo-me desde muito pequeno, nos meados dos anos 80 de ter entrado pela primeira vez no Restelo, pela mão do meu Pai, que até então era um simples adepto do nosso clube e que gostava de ver uma boa partida de futebol de tempos a tempos, em conjunto com outros amigos. Foi então que um destes amigos, começou a desafiar-me de 15 em 15 dias para vir à bola (os jogos eram quase sempre ao Domingo à tarde) e foi rápida a formação deste bichinho, que até hoje, é uma paixão para toda a vida. Obrigado António Encarnação por me teres proposto para sócio e é com muito orgulho, desde os finais dos anos 80 que ininterruptamente sou sócio do Belenenses.
Com pouco menos de 16 anos, filiei-me também na claque Fúria Azul, onde fiz grandes amizades, que hoje preservo com muita estima e consideração, que me faz recordar as centenas ou mesmo milhares de km que percorremos por este país fora, atrás de uma camisola, símbolo, paixão e mais que tudo, de uma forma de estar e ser, partilhando alegrias e desgostos, rindo e chorando, com a irreverência natural da idade que tínhamos (também naquele tempo, fruíamos os nossos excessos, que em nada dignificavam a nossa bandeira mas, coisas “normais” de jovem). Ontem, hoje e amanhã, a Fúria terá sempre o seu lugar e papel dentro do clube e acredito com melhores resultados desportivos, possa voltar a ter uma maior presença e intervenção, contribuindo de uma forma positiva para o espectáculo desportivo. Nada mais do que estarem juntos em torno deste grande amor. Não esqueci antes, como reconheço hoje, o esforço e dedicação de muitos jovens, que muitas vezes prejudicam as suas vidas pessoais, do ponto de vista social e económico (razões familiares, profissionais, como também os custos inerentes às deslocações), em prole da causa Belenenses. Apenas receio que hoje ou amanhã, a Fúria possa ser instrumentalizada, como um meio, para alimentar qualquer quezília ou prejudicar relações institucionais entre outros actores da vida do clube, e que se afaste ou confunda o seu papel de um núcleo respeitável e importante, como todos desejamos. Um grande haja para todos os furiosos.
Abordando agora o estado actual do clube, queria fazer uma pequena introdução sobre a chamada “indústria do futebol”, que já não é só procedimentos, treino ou confiança, mas sim, de modelos de viabilidade e desenvolvimento, com um olhar técnico para os novos desafios do futebol mundial. Os modelos de negócio assentes no financiamento bancário tendem a terminar, procurando os clubes fontes alternativas de financiamento para fazer face aos seus objectivos e metas de prestigiar o seu emblema.
As dificuldades financeiras dos clubes que se notaram num crescente endividamento, as dívidas à administração fiscal ao nível das contribuições e impostos, o despesismo generalizado devido a uma gestão amadora dos dirigentes desportivos, aliado aos elevados valores orçamentais e as suspeitas ligações entre os clubes participantes e os organismos desportivos, passíveis de colocar em causa a verdade desportiva, impõem a implementação de um novo modelo, de equilíbrio orçamental e rigor contabilístico, responsabilização e transparência desportiva, citando uma publicação do Prof. António Candeias.
Quando questiono-me onde ficou o Belenenses, no meio desta transformação do futebol, diria que ainda nem eu era nascido, quando o clube começou a perder a sua importância e potência no ímpeto do contexto nacional, juntando a paragem no tempo ao nível da necessária e constante reestruturação administrativa, financeira e até social. Não tivemos a capacidade de regenerar os milhares de adeptos e sócios que por esta ou aquela razão se afastaram da vida do clube e até iria mais longe ao afirmar que perdemos parte da nossa identidade ou história de um clube de projecção nacional. Segundo os mais optimistas, hoje, o Belenenses possui aproximadamente 4.000 sócios (última renumeração e considerando não pagantes), excessivamente pouco para quem outrora foi campeão em Futebol e outras modalidades, vencedor de taças, torneios e demais competições. Não importa quem errou no passado, quem não teve arte e engenho para acompanhar ou ser mais proactivo, de forma a alterar e a evitar este estado actual. Importa sim, o que fazer para mudarmos esta espiral descendente. Mas o futuro não é animador, hoje não temos o futebol profissional na alçada do clube, que seria um meio ou não para recuperarmos a restante colectividade. A SAD desportiva é uma realidade e consequência de gestão deficitária ao longo de anos. Não pondo em causa que no seio da família azul, não haja gestores bem sucedidos nas suas vidas profissionais, nesta nova era da gestão desportiva, é irrefutável que um gestor deva ter competências de planeamento, organização, liderança e acima de tudo muita capacidade de investimento (com risco). O novo gestor deve reunir equipas multidisciplinares no domínio das actividades desportivas, ética, marketing, comunicação, direito desportivo, finanças e política desportiva. O dirigente do passado cuja sua forma de liderança, assentava numa tradição associativa, em que na maioria dos casos dependiam de um regime benévolo, não serve aos novos desígnios, isto é, aos novos modelos de gestão desportiva.
Na minha opinião, não me choca que o Futebol SAD esteja fora da alçada da gestão do clube, até porque hoje este modelo é corrente em muitos países, como Espanha, Rússia, França, Itália e com um foco no maior e melhor campeonato de clubes do mundo, a Inglaterra, que gerou só no último defeso, qualquer coisa como 4.400 milhões de Euros de receitas. O que me importa é que a identidade e história não se percam, porque desde que tenha aquela cruz ao peito no fundo azul, eu estarei lá. Prudentemente, entenda-se com alguns fantasmas do passado no pensamento, também ficaria satisfeito (mediante o cumprimento das premissas mencionadas anteriormente), se a gestão do futebol profissional voltasse ao clube, mas aqui, não me parece que tenhamos argumentos (entenda-se, capacidade financeira) de recompra da SAD, independentemente da denúncia do acordo parassocial que nos impede de novas janelas de oportunidade para a dita recompra. E para que possamos voltar a pensar na recompra da SAD, temos que arrumar o clube…
O clube futebol “Os Belenenses”, como associação desportiva vive dias cinzentos, dias que não são recentes, possuem anos, anos de aventuras e falta de rigor na gestão de diversas direcções, que não pondo de todo em causa o belenensismo que assistia os nossos dirigentes do passado, não foram capazes de inverter ou convalescer a “saúde” do nosso clube. Mas hoje não importa o antigo, interessa sim o futuro e o que fazer?!
Não invejo os anteriores e novos corpos sociais do nosso Belenenses, porque sei que ambas as direcções tiveram e tem desafios titânicos pela frente. A nossa sobrevivência no verdadeiro significado da palavra está em causa e já é hora de todos acreditarem que o nosso estado actual é inquietante. É o momento de descerem da passarela, de arregaçar as mangas, despejarem preconceitos e vaidades e unirem-se em torno deste nosso “bem” comum, porque se as coisas correrem mal, o Belenenses não será nosso, será dos credores (banca, estado e outros). Preocupa-me algo que pode por em causa toda a nossa história e caso falhemos, morremos e se verificarmos, só temos uma solução (no meu ponto de vista), tudo o resto é consequência ou incoerência. A nossa primeira e principal prioridade deve-se ao cumprimento do PER (plano especial de revitalização) que permitiu ao clube poder respirar um pouco melhor, sem ter que enfrentar diariamente o turbilhão de execuções judiciais, obrigando a uma constante redefinição de prioridades para as já escassas receitas e para possuirmos capacidade de liquidez para esta obrigação (que escrupulosamente, não pode falhar), tem o clube que encontrar fontes de receitas (algumas antigas e desbastas, outras novas, que sendo insuficientes vão sendo uma alternativa pálida para minimizar o problema do financiamento). Para que todos possamos reflectir juntos, estamos a falar de receitas do tipo quotização, aluguer de espaços e a tão importante e velhinha receita, talvez aquela que nos aguentou até aos dias de hoje, o Bingo. 2º problema e rigorosamente ligado ao primeiro (PER). O Bingo é outra dificuldade que urge encontrar uma resolução. Em primeiro lugar porque o clube continua a ser um “bingodependente”, cujas suas receitas são responsáveis pelo cumprimento do PER e ainda a maior fonte de rendimento, em 2º lugar porque a nossa concessão da sala de jogo termina no próximo Março do ano que vem (falta menos de 6 meses!) e sem esta concessão perdemos tão importante receita para a nossa sustentabilidade e em 3º e último lugar porque o Bingo é uma indústria que cada vez mais está em desuso, frequentado por pessoas de “experiente” idade e substituído pelos modernos e polivalentes casinos e apostas online. Resumindo a questão do bingo, mesmo que a nossa direcção consiga (e eu acredito) renovar a concessão, os valores envolvidos serão mais baixos do que os actuais (tem sido compreensível e constante ao longo dos últimos anos). Podia escrever e partilhar outras preocupações, também importantes, como o envelhecimento das nossas instalações: estádio desenquadrado com a nossa actual dimensão de adeptos e sócios, desconfortável, sujo a necessitar de constante manutenção; pavilhão obsoleto e com os mesmos problemas descritos anteriormente, casas de banho conspurcadas que obrigam qualquer usuário a suster literalmente a respiração quando as usa; piscinas, etc., etc., e para tudo isto, que não sendo uma prioridade, a sua requalificação vale muito dinheiro e aqui mais uma vez não temos solução aparente. Não podemos continuar a reagir aos problemas, temos que necessariamente antecipa-los e sermos proactivos na prossecução dos nossos objectivos. O que pretendemos para o nosso Belenenses?
Desculpem a minha obsessão, mas pelo exposto anteriormente não vejo outra solução se não a total requalificação de todo o complexo do Restelo, dotando o Clube de instalações desportivas e de serviços modernos, funcionais e que representem uma mais-valia financeira na forma de uma receita mensal para o Clube de Futebol “Os Belenenses”. Citando uma frase de um consócio numa recente assembleia-geral, nós ainda vamos morrer de overdose de imobilizado. Não faz sentido nos dias de hoje e passados tantos anos, querermos estar agarrados a um activo desqualificado, inútil e ao abandono, quando os modelos actuais de gestão orientam as associações desportivas para esse caminho. Obviamente que teremos que conceder algumas contrapartidas, sejam elas direitos de superfícies definidos no tempo ou outro tipo de garantias. Para quem não possui capitais próprios e desde que os terrenos não sejam literalmente alienados, aliado a regras muito claras da impossibilidade de antecipar rendas, esta é e será a nossa salvação. Não me importa se o parceiro é nacional ou estrangeiro, não me interessa se é de ajuste directo ou através de concurso internacional, desde que os superiores interesses do Belenenses sejam salvaguardados e sufragados pelos sócios em assembleia-geral, ontem já era tarde.
Para terminar, apenas gostaria de escrever sobre mais um tema, inevitavelmente o mais importante de todos, desejo redigir sobre nós, nós os sócios, o bem mais precioso que temos e que sem nós, não importa falar de problemas e soluções. Parafraseando uma célebre frase de compromisso de “unir e pacificar”, na qual eu concordo e revejo-me, sinto que estamos cada vez mais afastados da vida do clube. Somos cada vez menos, não existindo qualquer correlação do número de sócios e adeptos participativos com a nossa história e glória, e pior ainda, vivemos num clima de crispação constante, no triângulo sócios, direcção do clube e SAD. Sempre fui e serei a favor do diálogo, do pluralismo de ideias, da democracia deliberativa para a formação de consensos, mas sinto que a comunidade Belenenses incorporou o velho ditado <casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão> e pior é que não ficássemos só pelo “ralhar”, ofendemo-nos e ameaçamo-nos quem não concordar connosco. Não pode ser! Se para algumas coisas estamos muito atrasados, nas redes sociais (principalmente no facebook) com uma enorme proliferação de páginas dedicadas ao nosso clube, estamos na vanguarda e aqui, apesar não estar ao alcance da nossa direcção na maioria dos casos, somos corresponsáveis por alimentar este mau ambiente de ofensa constante. Eu como muitos sócios do Belenenses com quem frequentemente converso e conheço, afastaram-se simplesmente de debater o nosso clube, distanciando-se(auto excluindo) de alguns fóruns e grupos, porque em consciência não é saudável e assim se perde mais uma forma de enriquecer a nossa família azul. Relativamente à campanha de recuperação de sócios em curso, concordo na generalidade e aguardo a seu tempo os resultados da mesma, mas não antevejo, infelizmente, bons resultados, porque este grave problema é muito mais complexo e necessita na minha opinião de outro tipo de medidas adicionais (cujo algumas possuem custos). Se o Belenenses2019 me der uma segunda oportunidade de escrever depois desta minha incapacidade de síntese, terei todo o gosto em partilhar algumas das medidas adicionais que julgo serem necessárias.
Esta é uma parte da minha visão e opinião pessoal de um simples sócio que tem esta paixão pelo Clube Futebol “Os Belenenses”.
Viva o Belenenses
Artur Pereira

 

 

 

 

 

 

 

0

cfernandes

cfernandes@belenenses2019.com