Quo Vadis Belém?

Quo Vadis Belém?

Dou por mim incessantemente a pensar na resposta para esta pergunta. Faço-o regularmente enquanto adepto e sócio, fazia-o todos os dias quando tinha responsabilidades no Clube.

Invariavelmente quando a procuro confronto-me com uma necessidade que me parece imperativa desde há muito tempo, talvez desde o final dos anos 70, quando começámos a perder a passos largos o ímpeto e a importância de outrora: perceber onde estamos e como aqui chegámos.

É minha convicção que sem este diagnóstico nunca conseguiremos definir um rumo consistente e decidido para um futuro risonho.

O Belenenses nasceu para ganhar e para competir directamente com os mais fortes, lutando por conquistar todas as provas em que entrava. Este era o mote fundamental da nossa existência. Esta era a nossa identidade que se foi enraizando e que se tornou na base atractiva dos seus simpatizantes, dos seus adeptos e dos seus associados. Lutar com o Benfica, com o Sporting e com o Porto está na nossa matriz existencial. Começou no futebol e alastrou-se por inúmeras modalidades ao longo dos anos.

Só estes quatro Clubes chegaram até aos dias de hoje mantendo esta inscrição na certidão de nascimento.

Todos os outros Clubes portugueses, mesmo aquele que fora estes quatro conseguiu ganhar um campeonato nacional, têm outros motivos na base da sua identidade: a cidade a que pertence, a região onde se insere ou ambos. Conforme os resultados e a arte de quem os dirige tornam maior ou menor a sua base de apoio e a sua relevância no âmbito nacional.

Sendo um facto que nos diferencia quando não se ganha torna-se numa faca no peito que nos vai matando lentamente, esvaindo o nosso sangue que se alimenta de títulos e tirando-nos toda a força (adeptos e sócios) que nos sustenta enquanto associação desportiva.

O Porto sentiu este peso durante 19 anos e até aí estava muito perto de nós, depois levantou-se e disparou para as três décadas de maior sucesso do futebol português. O Sporting jejuou 18 épocas e prepara-se para outras tantas ou mais sem ganhar e definhar,  ficando os êxitos dos anos 50 cada vez mais longe. O Benfica, depois de uns anos 80/90 em que perdeu o fulgor dos anos 60/70, registou 10 épocas sem o título máximo e reergue-se hoje em conquistas e dimensão.

Nós fomos os primeiros a sentir a dor do jejum quando em 55 não conquistámos o segundo título nacional nos últimos minutos para não mais o discutirmos até hoje. Neste período de 69 anos sem ganhar o campeonato, duas taças de Portugal apenas e sete épocas na II Liga tiraram-nos o fulgor e a capacidade de ombrear com estes 3 Clubes, ou seja, destruímos a nossa matriz e a nossa identidade.

A este fraquíssimo desempenho desportivo somaram-se, umas vezes como causa outras como consequência, inúmeros problemas financeiros e estruturais, instabilidade directiva constante e um declínio institucional progressivo com pequenos períodos de excepção, salpicados aqui e ali por umas épocas mais dignas no futebol, entre as quais umas esporádicas idas à UEFA, e por umas conquistas nas modalidades.

Não sou apologista das teorias da conspiração e de desígnios forçados pelas classes politica e dirigente das instâncias desportivas. Vejo esta decadência como consequência de não acompanharmos a história e de não aproveitarmos as inúmeras oportunidades que nos surgiram pela frente. Muita culpa própria a meu ver.

É verdade que nestes anos houve uma viragem desportiva a norte e muitos “apoios” inexplicáveis e decisivos a muitos Clubes mas também é verdade que nós não soubemos definir estratégias que nos fizessem chegar mais à frente e aproveitar as muitas receitas e os anos de excedentes financeiros que também tivemos. Foi assim nos lobbys institucionais, nos media, no futebol profissional, na formação e no património.

A verdade é que com o Belenenses a chegar aos cem anos  e depois de um primeiro terço deslumbrante  a impor-se como grande potência desportiva nacional, os últimos dois terços da nossa idade conduziram-nos a uma situação estrutural muito complicada:

– Futebol profissional entregue a externos sem capacidade de investimento e sem qualquer intervenção ou  ligação ao Clube;

– Instalações subaproveitadas e um estádio obsoleto;

– Uma situação financeira débil com uma tesouraria apertadíssima sem possibilidade de investimentos próprios;

– Modalidades geridas autonomamente;

– Uma base de adeptos cada vez mais reduzida e um número de sócios insignificante.

O que nos resta então?

Resta-nos a nossa HISTÓRIA, o RESTELO e o tremendo potencial desportivo da FORMAÇÃO.

Chega para nos reerguermos?

Acredito que é uma base de peso com três pilares fortes que nos podem permitir alguns saltos qualitativos, decisivos e fundamentais para o relançamento do Belém.

Mas para isso temos que olhar para o amanhã, perspectivando o futuro para além do que somos hoje, coisa que não fizemos durante anos e anos. Este tem sido o nosso gritante erro. Temos que fazer escolhas,  que traçar prioridades e que redefinir objectivos. Temos até que fazer cedências, concentrarmo-nos no essencial e abdicar do acessório se for necessário, nem que seja provisoriamente.

Devido a inúmeros factores exógenos e endógenos o erro do Belenenses  tem sido estar demasiado agarrado ao passado, não perceber o que diz o presente e não perspectivar devida e metodologicamente o futuro.

A ideia que aqui se edifica é aproveitar este espaço “Belenenses 2019” para desenhar cenários desafiantes e ajudar o Clube a construir aquilo que julgo absolutamente obrigatório nesta altura: uma estratégia forte e consistente, com vários planos de curto, médio e longo prazo assente num compromisso geral dos belenenses.

De outra forma, tudo o que se conseguir fazer, seja ao nível dos sócios, do projecto desportivo ou do património, será sempre avulso e com resultados práticos condenados à partida, mantendo-nos na curva descendente até um ponto sem retorno.

“Concentre-se nos pontos FORTES, reconheça as FRAQUEZAS, agarre as OPORTUNIDADES e proteja-se contra as AMEAÇAS.”

Sun Tzu

0

ncosta

ncosta@belenenses2019.com